Paciente é o bancário aposentado Cid Lourenço, 66 anos; ele teve alta médica no dia seguinte ao procedimento
Considerada um avanço no tratamento da aterosclerose (obstrução das artérias por placas de gordura), a angioplastia é uma técnica cada vez mais segura. A Santa Casa de Marília, que disponibiliza o procedimento por meio do setor de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, acompanha essa evolução e realizou, na última terça-feira, 10, a primeira angioplastia da região com stent absorvível. O paciente é o bancário aposentado Cid Lourenço, de 66 anos. Ele comemorou o resultado da intervenção, que reverteu um quadro de obstrução de 80% da artéria.
O implante foi realizado pelos hemodinamicistas Pedro Beraldo de Andrade e Fábio Salerno Rinaldi. Até então, pacientes de apenas quatro cidades de São Paulo haviam recebido o stent absorvível, uma tecnologia norte-americana recentemente adotada no Brasil.
Beraldo explica que o stent é um dispositivo expansível, implantado no local em que a artéria está obstruída. Diferentemente das ligas metálicas permanentes, o material absorvível consiste de um polímero que desaparece do organismo em até dois anos, convertendo-se em gás carbônico e água. O primeiro implante aconteceu há cerca de cinco anos na Europa, com eficácia comprovada.
Mas, para que a novidade chegasse aos centros especializados, foram necessários muitos anos de pesquisa. Ao longo dos últimos 20 anos, a delicada endoprótese foi aperfeiçoada em relação ao seu design e material, visando maior eficácia e segurança.
“A angioplastia consiste em um dos pilares no tratamento da doença aterosclerótica coronariana. Quando começou a ser utilizada, inicialmente apenas com balões, representou um grande avanço científico, mas apresentava elevadas taxas de recorrência e de complicações. Com o tempo, a Cardiologia Intervencionista, que se dedica a procedimentos cardíacos minimamente invasivos, vivenciou o advento de novas ferramentas, como os stents convencionais, os farmacológicos e agora os dispositivos absorvíveis”, explica Beraldo.
Uma das principais complicações com o uso do stent convencional, produzido com liga metálica, era uma reação gerada pelo próprio organismo. Em média, 15% dos pacientes que recebiam o stent desenvolviam a reestenose, ou seja, a cicatrização indevida no local da intervenção. Por isso, a segunda geração de stents agrupou a tecnologia dos fármacos, liberando no local da lesão medicações capazes de controlar a cicatrização.
Um efeito indesejável, tanto dos stents convencionais quanto dos farmacológicos, é a alteração na conformabilidade da artéria. Especialistas acreditam que a presença do material rígido possa ser causador de angina (dor no coração). Com o novo stent absorvível, pesquisadores constataram que a anatomia da artéria coronária é preservada após seu desaparecimento.
O implante, porém, não é indicado para todos os casos até o momento. Em um grupo de dez pacientes, a estimativa é que dois ou três poderiam usar o material absorvível. O médico explica que, pela sua própria constituição, o novo stent é recomendado para intervenções de menor complexidade anatômica. Quando há maior dificuldade de acesso à lesão, seja por tortuosidade ou calcificação excessiva, os médicos precisam utilizar o dispositivo com liga metálica.
“Acreditamos que as pesquisas avançarão nesse sentido, para que haja um aprimoramento dos materiais e possamos, no futuro, ter um número cada vez maior de implantes de stents absorvíveis com manutenção da eficácia e segurança”, disse o médico.
CORAÇÃO ABERTO
Apesar da pressão arterial 12/8, da alimentação equilibrada e da atividade física frequente, o bancário aposentado que recebeu o stent poderia ter sofrido seu terceiro infarto. Ele conta que o primeiro aconteceu em 2002 e o mais recente em agosto deste ano.
Foi em decorrência da nova intervenção cardíaca, há dois meses, que Lourenço descobriu a terceira obstrução. “Felizmente, pela competência dos médicos que me atenderam, foi constatado a tempo que eu estava com 80% dessa artéria comprometida. Se não fosse esse alerta, eu não estava aqui hoje, colocando esse stent de forma tranquila, programada e preventiva. Poderia estar infartado de novo”, conta o paciente.
Cid Lourenço agradeceu a equipe da Santa Casa de Marília e disse ter ficado honrado em ser o primeiro paciente beneficiado pela inovação em Marília. “Acredito que estamos evoluindo, avançando em conhecimento e a vida no futuro será muito melhor, do ponto de vista da saúde, para as novas gerações”, afirma.
O bancário faz um alerta para o estresse, um fator de risco nem sempre valorizado e comenta a resistência de parte da população ao acompanhamento médico. “Eu estava fazendo meu 'autodiagnóstico'. Em agosto, cheguei ao hospital infartado, mas não aceitava o que estava acontecendo, porque eu faço atividade física, me alimento bem e minha pressão (arterial) é excelente. Isso é um erro. Temos que confiar nos médicos e não podemos esquecer que o estresse também prejudica a saúde”, disse.
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